CAPAZ DE SENTIR …

12 de janeiro de 2014, domingo.  Eu já andei contando para vocês, por este meu blog, que cerca de um terço de nossa população de moradores e composta de dependentes.  São assim rotulados porque realmente dependem da assistência constante e atenta dos dedicados funcionários(as) daqui do Lar para suprir as mais básicas necessidades de locomoção e ação.

Meu quarto, digo constantemente aos meus visitantes, dispõe de duas janelas.   Uma delas para a qual estou aqui de frente é a tela deste computador, através da qual e graças às Redes Sociais e os mais variados Sites e Navegadores, me permito enxergar toda esta parafernália em que têm se transformado o mundo “lá fora”.

A outra, há a outra! Bem aqui há minha esquerda está debruçada diretamente no pátio, muito bem cuidado, onde aqueles dependentes dividem o espaço e o sol com pombos que volitam em torno à cata dos restos de miolo de pão a eles atirados. É lindo e poético… Pelo menos é assim que eu vejo.  Neste grupo de companheiros, assim como nós independentes e semi dependentes, todos são completamente diferentes um dos outros, também já o disse por aqui.

Assim, posso estar observando, analisando e vaticinando o que poderá acontecer comigo, quando incluído naquele grupo.  Vou continuar convivendo com brincalhões, amigos e risonhos junto a outros descontentes e plenos de reclamações. Alguns outros agradecidos pela sorte de contar com companhia de mesma idade e atendentes sempre prontos(as) a servir-nos incondicionalmente. E, infelizmente, com os mal educados e grosseiros transpirando ódio e revolta contra tudo e contra todos.

Aí o visitante, repleto da boa intenção de trazer conforto, paz e amor a todos os moradores, sejam eles dependentes ou não, se depara com o total imprevisto.  Como saber quem é quem? Que palavras dizer? Que estórias contar?  Que gestos e olhares distribuir? … Dureza, não?

Ontem sábado, Josete e Gilda do Instituto História Viva, estavam por aqui prontas para contar estórias, porém, sentindo certa dificuldade em encontrar ouvintes, foi então que tropeçaram comigo e entramos em plena confabulação acerca desta dificuldade.  Pude então pô-las a par daquilo que venho observando nestes cinco anos.

ROSELI BASSI

ROSELI BASSI

Fora raríssimas exceções, o idoso daqui não se liga muito em escutar histórias alheias.  Eles têm suas próprias e estão sempre ávidos em ouvidos emprestados para conhecê-las.  Acho que isto foi observado pela Roseli Bassi, não só aqui como em outros lares e abrigos de idosos, para fundamentar, por em prática e saborear o sucesso do Instituto que dirige.

Uma estória, “causo” ou narrativa de um acontecimento feita pelo “Coroa”, devidamente remodelada e encantada, trazida de volta para ele a qualquer tempo, podem crer, vai encontrar um ouvinte bastante interessado e, pronto para corrigir algumas linhas… afinal ele conhece os locais, a época, os figurantes e o(s) protagonista(as).  Sem contar o fato de que ele foi lembrado por alguém de fora… É a glória!

Há quem diga que o idoso é incapaz e até a Lei embarca neste rótulo ao criar punições para os crimes como “abandono de incapaz”, e outros babados.  Realmente o tempo e sua comparsa, a idade, vai reduzindo a capacidade do ser humano (de todos seres humanos) de se locomover, tolhe parte ou a totalidade de um ou vários de seus cinco sentidos.  Torna-o incapaz até de entender o que se passou consigo, com seus familiares, amigos e conhecidos. Mas, queridos leitores. Não importa que a pessoa seja incapaz ou não de pensar. O que importa é que ela é…

CAPAZ DE SENTIR

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3 respostas para CAPAZ DE SENTIR …

  1. Excelentes colocações mano Jura!!!

  2. A.C.Ferrari disse:

    Dou testenho, SEUJURA. Sentir; respeitar e amar. Este é um lugar de gente verdadeira, logo boa, fruto do desapego…Abraço. Ferrari

  3. Republicou isso em Espaço de Jurandyre comentado:

    Quinta-feira, 14 de janeiro de 2021… Estou reblogando este texto após sete anos, porquê continuo levando em conta, outras janelas.

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